quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Literatura 2

Foto: Nei Birk
Livros, Contos, Poesia, Crônicas para estes tempos...

"Aprendi com a Natureza a me deixar cortar e voltar sempre inteira" (Cora Coralina)

Falando em Metamorfose é leitura obrigatória o livro de Franz Kafka, inspiração de parte do assunto deste Blog. Como a obra é de domínio público você poderá encontrar em alguns sites:
http://www.dominiopublico.org.br/ ou ainda: http://www.culturabrasil.org/metamorfose


Já tem Edição de bolso, assim você poderá levar onde desejar ir. Em outras palavras é dizer viajamos com uma obra e, embora estejamos em algum lugar lendo estamos "no mundo";

Vale a pena ler "O conto da ilha desconhecida de Saramago" pequena e profunda mensagem:
http://www.releituras.com-jsaramago_conto_asp/

Do livro "Passageiros do espelho" o Conto:

ESPECTRO D’ÁGUA

Por NATALIA BUENO

Há um universo dentro de mim, pensa Sofia em frente àquelas incontroláveis ondas sonoras que preenchem o imenso quadro obscuro aos seus olhos e exprime a profunda sensação de que há água por todo o lado.
Por algumas horas aquela mulher de olhar enigmático, cabelos negros como o fundo do cosmos, fixa as imensas águas e percebe o quão é impossível avistar tudo em um único olhar. Pede ajuda. Observa ao redor, ninguém para amparar. Continua a mergulhar. Conforma-se.  Não há o que esperar alguém para orientá-la? Um espasmo de pensamento lhe ofusca a mente: Pura ilusão! Estás sozinha, nada a presumir, precisa se entregar.  Corajosamente se propõe a interpretar-se naquele fragmento do mundo, ela a água o mar. Uma resiliente Sofia se permite navegar, não importa o que vier a Ser.
Já não sente mais qualquer pedaço de sua roupa. Desnuda, estás dentro, no, com o mar. Um fragmento de reflexão chega a mente palpitando um feixe do cérebro que se arrepiando exala: - Agora pertenço a este mundo, sou dele e nada importa e desprovida de qualquer sentimento de medo permite que a água preencha o seu espaço restante do corpo que já 70% água completa-se com seus fragmentos. Água corpo-água é o fragmento do mundo-Sofia. A mente já toda água revela: - Que turbulência! Que paz! Que imensidão divina! Não há nada mais o que pensar, fazer, já sou água! O último feixe da razão que chega a mente de Sofia antes que todo aquele mar se consumisse em, com a matéria Sofia.
- Não sou mais corpo,  matéria, pessoa. Sou uma gota no infindo oceano, fazendo-se parte do Todo e do Nada. Metamorfoseando se inclina para outro modo de Ser.
Sibilantes rajadas de vento penetram na água. Sofia dialoga com cada pulsar do ar que vem e vai tocando inúmeras gotículas de água antes de caírem no oceano, sendo ela gota-Sofia-água, parte de um fragmento da atmosfera.  A queda as transforma em milhares, infinitas outras matérias que se entrelaçando formam uma imensidão d’água que faz a Terra se expandir de nova energia, purificando tudo. Os inúmeros seres abaixo e acima do mar se despertam fartando-se de alegria a espera de novas rajadas do estrondoso  vento. O que surge faz com que todos os seres se exaltem e se escondam, arriscando de soslaio e ainda assim, esbugalhando os olhos, um observar. Uma vociferante voz clama do céu e acompanhada de muitas luzes traz rajadas por todos os cantos do mar. E num eloquente dialogar céu e mar parecem digladiar num breve minuto de inspiro e expiro, conformados e exaustos da discussão, num efêmero instante se comprometem a acalmar-se.
Sofia  imersa no oceano é ainda discussão e ao perceber o enorme clarão que vem do céu vira-se de súbito, já não está mais água, penetrou no céu preto-cinzento e repentinamente observa o mar que pergunta do atroador vozeirão:
-  Você por hora está  acima, mas já esteve cá embaixo e vê!!  Não há diferença alguma, apenas mudou de lugar, mas o que vê daí também se observa daqui. Você pertence aí, mas aqui também, não há nada acima que já não exista abaixo.
A mulher reluta, mas se une aos gritos do céu e assume a voz da imensidão, vociferando impulsivamente. Trava-se um duelo infindo, céu e mar se intercalam e se confundem para gera uma outra emanação.  A majestosa luz chega para se adicionar a Sofia-céu-mar. Em cada grito que surge das profundezas da imensidão céu-mar trazem consigo estonteantes cortes de um gigantesco duelo de luz, traçando no céu contínuas linhas disformes. Unindo céu-mar num único feixe de inchado de luz.  Tudo se confunde e em uníssono gritam, vibram, jogando luz a todo lugar sem estar em lugar algum. Já não se sabe quem e o que é cada Ser e Sofia dentro de si e de Tudo na imensidão proporcionada pela expressão de tudo e nada, não é matéria, mas consciência irracional coletiva e que instiga a saída e entrada a todo o momento, numa contínua espiral de mar-céu-terra, luz.  Já desprovida de qualquer razão, tenta um lapso de comunicação: - Quem eu sou nesta imensidão?  Responde-se: - Água, luz e escuridão, nada e tudo. Espectro do cósmico que emana obscuridade.  Retorna a água e se acrescenta a resposta de  Sofia: - Sou tudo o que vem de cima e está abaixo! O que está dentro de ti está em mim.
Sofia fora de si se observa toda água, não há nenhuma dúvida de sua completude mar-céu-terra-luz. O vento logo retorna para que a água penetre profundamente a matéria trazendo consigo mais cortes de feixes de luz que, como cristais de vidros, rasgam o céu para evidenciar o clarão boquiaberto que clama na escuridão. Toda a quintessência da natureza adentra-se a Sofia e se espalha pelos infindos canais que se comunicam com outras imensidões.  Nada parece acalmar aquele minuto de espasmo de Sofia; retornam vozeirões de luzes que seguem cortando e arrepiando o corpo exausto de uma Sofia-céu-mar-escuridão-luz prestes a ser engolida pela catarse proporcionada pelo diálogo entre o acima e o abaixo.
Caoticamente, um grande estalo... Consegue, então, fechar a janela da sala. A tempestade lá fora deixa evidente que aquela noite de verão na praia trará muitas promessas aos sonhos de Sofia; folhas verde-secas com gotículas de água caem ao lado de fora da janela. Delicadamente apaga a luz e retorna a cama. 

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