| Foto: Nei Birk |
Falando em Metamorfose é leitura obrigatória o livro de Franz Kafka, inspiração de parte do assunto deste Blog. Como a obra é de domínio público você poderá encontrar em alguns sites:
http://www.dominiopublico.org.br/ ou ainda: http://www.culturabrasil.org/metamorfose
Já tem Edição de bolso, assim você poderá levar onde desejar ir. Em outras palavras é dizer viajamos com uma obra e, embora estejamos em algum lugar lendo estamos "no mundo";
Vale a pena ler "O conto da ilha desconhecida de Saramago" pequena e profunda mensagem:
http://www.releituras.com-jsaramago_conto_asp/
Do livro "Passageiros do espelho" o Conto:
ESPECTRO D’ÁGUA
Por NATALIA BUENO
Há um universo dentro de mim, pensa Sofia em frente àquelas
incontroláveis ondas sonoras que preenchem o imenso quadro obscuro aos seus
olhos e exprime a profunda sensação de que há água por todo o lado.
Por algumas horas aquela mulher de olhar enigmático, cabelos negros como
o fundo do cosmos, fixa as imensas águas e percebe o quão é impossível avistar
tudo em um único olhar. Pede ajuda. Observa ao redor, ninguém para amparar.
Continua a mergulhar. Conforma-se. Não
há o que esperar alguém para orientá-la? Um espasmo de pensamento lhe ofusca a
mente: Pura ilusão! Estás sozinha, nada a presumir, precisa se entregar. Corajosamente se propõe a interpretar-se
naquele fragmento do mundo, ela a água o mar. Uma resiliente Sofia se permite
navegar, não importa o que vier a Ser.
Já não sente mais qualquer pedaço de sua roupa. Desnuda, estás dentro,
no, com o mar. Um fragmento de reflexão chega a mente palpitando um feixe do
cérebro que se arrepiando exala: - Agora pertenço a este mundo, sou dele e nada
importa e desprovida de qualquer sentimento de medo permite que a água preencha
o seu espaço restante do corpo que já 70% água completa-se com seus fragmentos.
Água corpo-água é o fragmento do mundo-Sofia. A mente já toda água revela: -
Que turbulência! Que paz! Que imensidão divina! Não há nada mais o que pensar,
fazer, já sou água! O último feixe da razão que chega a mente de Sofia antes
que todo aquele mar se consumisse em, com a matéria Sofia.
- Não sou mais corpo, matéria,
pessoa. Sou uma gota no infindo oceano, fazendo-se parte do Todo e do Nada.
Metamorfoseando se inclina para outro modo de Ser.
Sibilantes rajadas de vento penetram na água. Sofia dialoga com cada
pulsar do ar que vem e vai tocando inúmeras gotículas de água antes de caírem
no oceano, sendo ela gota-Sofia-água, parte de um fragmento da atmosfera. A queda as transforma em milhares, infinitas
outras matérias que se entrelaçando formam uma imensidão d’água que faz a Terra
se expandir de nova energia, purificando tudo. Os inúmeros seres abaixo e acima
do mar se despertam fartando-se de alegria a espera de novas rajadas do
estrondoso vento. O que surge faz com
que todos os seres se exaltem e se escondam, arriscando de soslaio e ainda
assim, esbugalhando os olhos, um observar. Uma vociferante voz clama do céu e
acompanhada de muitas luzes traz rajadas por todos os cantos do mar. E num
eloquente dialogar céu e mar parecem digladiar num breve minuto de inspiro e
expiro, conformados e exaustos da discussão, num efêmero instante se
comprometem a acalmar-se.
Sofia imersa no oceano é ainda
discussão e ao perceber o enorme clarão que vem do céu vira-se de súbito, já
não está mais água, penetrou no céu preto-cinzento e repentinamente observa o
mar que pergunta do atroador vozeirão:
- Você por hora está acima, mas já esteve cá embaixo e vê!! Não há diferença alguma, apenas mudou de
lugar, mas o que vê daí também se observa daqui. Você pertence aí, mas aqui
também, não há nada acima que já não exista abaixo.
A mulher reluta, mas se une aos gritos do céu e assume a voz da
imensidão, vociferando impulsivamente. Trava-se um duelo infindo, céu e mar se
intercalam e se confundem para gera uma outra emanação. A majestosa luz chega para se adicionar a
Sofia-céu-mar. Em cada grito que surge das profundezas da imensidão céu-mar
trazem consigo estonteantes cortes de um gigantesco duelo de luz, traçando no
céu contínuas linhas disformes. Unindo céu-mar num único feixe de inchado de
luz. Tudo se confunde e em uníssono
gritam, vibram, jogando luz a todo lugar sem estar em lugar algum. Já não se
sabe quem e o que é cada Ser e Sofia dentro de si e de Tudo na imensidão
proporcionada pela expressão de tudo e nada, não é matéria, mas consciência
irracional coletiva e que instiga a saída e entrada a todo o momento, numa
contínua espiral de mar-céu-terra, luz.
Já desprovida de qualquer razão, tenta um lapso de comunicação: - Quem
eu sou nesta imensidão? Responde-se: -
Água, luz e escuridão, nada e tudo. Espectro do cósmico que emana obscuridade. Retorna a água e se acrescenta a resposta
de Sofia: - Sou tudo o que vem de cima e
está abaixo! O que está dentro de ti está em mim.
Sofia fora de si se observa toda água, não há nenhuma dúvida de sua
completude mar-céu-terra-luz. O vento logo retorna para que a água penetre
profundamente a matéria trazendo consigo mais cortes de feixes de luz que, como
cristais de vidros, rasgam o céu para evidenciar o clarão boquiaberto que clama
na escuridão. Toda a quintessência da natureza adentra-se a Sofia e se espalha
pelos infindos canais que se comunicam com outras imensidões. Nada parece acalmar aquele minuto de espasmo
de Sofia; retornam vozeirões de luzes que seguem cortando e arrepiando o corpo
exausto de uma Sofia-céu-mar-escuridão-luz prestes a ser engolida pela catarse
proporcionada pelo diálogo entre o acima e o abaixo.
Caoticamente, um grande estalo... Consegue, então, fechar a janela da
sala. A tempestade lá fora deixa evidente que aquela noite de verão na praia
trará muitas promessas aos sonhos de Sofia; folhas verde-secas com gotículas de
água caem ao lado de fora da janela. Delicadamente apaga a luz e retorna a
cama.

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